“Pedestre” galeria virgilio São Paulo 2018

exposicao pedestre 2

PEDESTRE  | Thiago Bortolozzo 

11 Setembro – 6 Outubro

Galeria Virgílio, São Paulo

O conjunto de trabalhos selecionados por Thiago Bortolozzo para sua passagem pela Galeria Virgílio nos propõe a experiência de um tipo bastante atual de expectação: aquele que combina a figura do visitante-de-galeria ao transeunte-urbano. Sob esta contextualização Bortolozzo nos convida à interlocução de trabalhos que tem formatações variadas, mas são todos eles, igualmente criados por meio de percursos desenvolvidos a partir da experiência direta e inquieta do artista com as espacialidades das megalópoles nas quais atuou ou viveu, como uma espécie de artista-transeunte-urbano.

As intervenções pontuais feitas por ele nas vigas e pilares do espaço arquitetônico da Galeria desempenham papel importante: alertam para o estado precário dos materiais utilizados, para as modelagens das estruturas empregadas na construção civil, bem como para a relação do trabalho manual que produz os edifícios e que podem gerar, por fim, a arquitetura que modela o espaço urbano vivido. Estas intervenções tanto sustentam o teto quanto nele se escoram; ladeiam a escada e assim propõem um jogo de equilíbrio e tensões entre a fragilidade desses materiais e os corpos que, como elas, ocupam este espaço na condição da passagem.

Deste mesmo modo, pontuam também o interesse de Bortolozzo pelo embate do pedestre com a paisagem urbana e nos sugerem reflexão mais ampla sobre a finitude de algumas terminologias que carregam conceitos caros para o campo da Arquitetura e do Urbanismo: o contexto que dá forma e espessura para os termos cidade e projeto arquitetônico, na atualidade.

Pelos usos que faz das estruturas e materiais empregados em seu trabalho, Thiago Bortolozzo parece sugerir uma pergunta que lhe escapa como artista, mas que o envolve como transeunte. E, talvez esteja aqui, na vascularidade dos campos arte-arquitetura, a riqueza da proposição poética trazida por ele. Ao fazer uso da fôrma de madeira, Bortolozzo nos apresenta a condição projetiva deste elemento bastante cotidiano nos processos da construção civil e localizado entre a fragilidade e a eficiência, entre os métodos intuitivo e projetivo. Mobiliza assim, tanto o precário quanto o devir que pertencem ao projeto e ao destino da Arte e do Urbano.

Instigado pela relação das camadas temporais do que ainda intitulamos por cidades, ele nos remete à sua falibilidade à sua atual desmesura como cidade, ao lugar preterido frente aos espaços abstratos do fenômeno urbano de hoje. Que tipo de espaço público protagonizam as cidades contemporâneas? Que tipo de pedestres elas nos anunciam?

Das intervenções aos objetos_ na forma de fotografias, livro e frotagens_ o percurso criado pelo artista adentra a sala expositiva para nela instalar outro jogo de forças com a megalópole. As imagens da série 30. April 03. Mai elaboradas por ele nos chamam a atenção para a beleza da abstração de sua construção plástica. E, para além deste dado, nos conduzem para as camadas temporais que a estrutura social urbana deve coordenar na atualidade: na série fotográfica apresentam-se trechos urbanos completamente esvaziados da presença humana, em dias de feriado. Datas em que, a falta do expediente, do uso mercantil destes espaços comerciais (bancos, supermercados, etc) anuncia a improbabilidade do controle completo de sua exposição direta à rua e demanda destas organizações privadas reforço material para proteger suas fachadas de ações públicas anônimas, com eventual depredação. Os anteparos, usualmente construídos em madeira, remetem às fases anteriores da construção, aos tapumes. Criam fachadas temporárias, cegas a qualquer outro uso urbano ou problema que não se efetive dentro dos interesses e controle de sua constituição pecuniária.

As frotagens por sua vez, foram feitas pela fricção direta de rodas de veículos sobre papel disposto no asfalto de ruas em Berlim e São Paulo. Assim, combinadas, apresentam novo percurso do artista por estas paisagens. Contudo, ao invés de proporem a mirada convencional no plano cartesiano, à frente, para o longe da linha do horizonte, passível de ser descrita pelas fachadas que constituem a orientação continuada dos percursos pela cidade, essas imagens nos chamam a atenção para o que está perto, logo abaixo do corpo do pedestre, e desse modo, menos reconhecível em nosso deslocamento cotidiano.

No conhecido ensaio intitulado “A escultura no campo ampliado” (1979), Krauss nos adeverte sobre a práxis artística na contemporaneidade e nos chama a atenção para a constatação de que os meios de expressão_ antes muito individuados_ deixam de responder à complexidade dos projetos atuais produzindo a demanda, sentida naquele momento, pela ampliação do campo artístico. Assim, os códigos artísticos são estipulados a partir de outro espectro, por meio de operações lógicas que englobam, coadunam, recombinam e revisam as linguagens conhecidas e praticadas.

Os registros visuais e as ações trazidas por Bortolozzo atestam este grau de complexidade produzido em sua experiência como sujeito que vive densamente a relação com a paisagem dos grandes centros urbanos. A mêcanica ou a artesania constitutiva dos trabalhos apresentados opera diálogos entre as camadas de urbanidade e as linguagens da arte e, assim termina por reforçar o tom de sua urgência.

Sylvia Furegatti

setembro. 2018

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